quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Atletas do tiro detonam proibição da caça esportiva no Brasil


A favor da caça, Roberto Schmites é filho de caçador e deu os primeiros tiros com apenas oito anos. Foto: Leandro Miranda/Terra A favor da caça, Roberto Schmites é filho de caçador e deu os primeiros tiros com apenas oito anos

Atirar em um disco lançado em alta velocidade, em uma direção aleatória, usando puramente o reflexo e a precisão na mira para abater o objeto em pleno voo. Os fundamentos do tiro ao prato guardam semelhanças inegáveis com a caça, atividade milenar que está nas origens do esporte. E esse é um dos motivos pelos quais os atletas que defenderão o Brasil no Pan-Americano de Guadalajara criticam com tanto vigor a proibição da caça esportiva no País.
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Até 2005, a caçada que não visa a obtenção de alimentos - ou caça esportiva - era permitida apenas no Rio Grande do Sul e praticada sob regulamentação rígida, determinando época, locais e espécies específicas para a atividade. Após forte pressão de grupos ambientalistas, a prática foi totalmente banida em território nacional. Para o técnico da Seleção de tiro ao prato, o italiano Carlo Danna, a proibição não faz sentido.
"Está na natureza do homem ser caçador. Só que hoje, no mundo moderno, tem uma luta contra a caça que eu considero bastante injusta. É uma atividade humana que existe desde sempre, e por que hoje não deveria continuar a existir? Mesmo porque, em alguns casos, o crescimento descontrolado de algumas espécies acaba criando doenças. O caçador sempre foi um controlador da natureza", argumentou.
O paranaense Rodrigo Bastos, que já participou de duas Olimpíadas defendendo o Brasil no tiro ao prato, é filho de caçador e se apaixonou pelo esporte graças à influência da atividade exercida pelo pai. Para ele, o País perde a oportunidade de gerar grandes receitas com a proibição - o que acaba também dificultando o desenvolvimento da modalidade, já que muitos dos atletas do tiro são provenientes da caça.
"A força do tiro esportivo e da caça estão ligadas. Infelizmente, no Brasil é proibido, e a grande maioria dos caçadores vai para outros países, como Uruguai e Argentina, caçar. Isso rende um monte de divisas para as fazendas de caça desses países, e essa receita poderia ser para o Brasil em si. É uma pena que o Brasil não veja com os olhos do negócio".
Quem fala mais sobre o impacto negativo que a proibição da caça tem sobre o esporte é Roberto Schmites, outro filho de caçador que começou a dar os primeiros tiros com apenas 8 anos, e hoje é guia de caça e pesca para grupos de brasileiros na Argentina. O atleta, 42 anos, vê a complicação para que os atletas obtenham suas armas e munições como reflexo do banimento da atividade.
"O Brasil é um país que está muito atrasado em relação aos europeus, por exemplo, em relação à caça. Hoje, existe uma renda muito grande em relação aos caçadores, porque gera emprego, tem os impostos que gera para o país, então teriam benefícios se houvesse uma caça regulamentada. Na Argentina funciona e é uma renda absurda. Isso influencia (no tiro esportivo), claro: você vê preço de munição maior, a quantidade de munição é menor, existe uma burocracia muito grande para um atleta comprar um arma".
Liberação da caça é inconstitucional, diz entidade
A evolução das leis ambientalistas contra a caça esportiva data da Constituição Federal de 1988, que instituiu no artigo 225 o dever de "proteger a fauna e flora". Em 1998, a Lei nº 9.605 proibiu expressamente a caça, enquanto a Lei nº 11.794, de 2008, é ainda mais específica, coibindo práticas que "submetam os animais a crueldade". "Não consigo imaginar crueldade pior do que tirar a vida de um ser vivo", afirmou Vanice Orlandi, presidente da União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), entidade que age no Brasil há 113 anos.
"É um absurdo que um animal morra para entretenimento humano", apontou a advogada, ao citar rodeios, vaquejadas e circos como eventos que visam o lucro e, apesar disso, constituem maus tratos e abuso de animais. Ela ainda criticou o argumento de controle de pragas ou de espécies para liberação de caça, classificando como "discurso barato". "Não é porque algo tem rentabilidade e crescimento econômico que pode ficar ficar acima da proteção ambiental. E não é porque há muita capivara que temos que matar algumas", apontou.
A UIPA é uma das entidades responsáveis pelos avanços da legislação ambiental no país no último século e tenta coibir medidas a favor da regulamentação da caça esportiva. "Há projetos terríveis tramitando de todo o lado. Eles têm o Código de Caça (Lei Federal de 1967) como base, mas ele não foi contemplado na Constituição de 1988. Toda lei a favor da caça é inconstitucional", determinou Vanice Orlandi. 

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