sexta-feira, 14 de outubro de 2011

No Pan, técnicos estrangeiros já aparecem em metade das modalidades


Orientações em espanhol, inglês e até um pouquinho de russo. O esporte brasileiro perdeu a vergonha de procurar treinadores estrangeiros para melhorar o rendimento em modalidades coletivas que já trouxeram medalha olímpica e até título mundial, como o basquete, ou naqueles que o Brasil está longe de ser potência. Na disputa dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, que começam nesta sexta-feira no México, metade das modalidades trabalha com técnicos nascidos longe do país – 20 das 40 que recebem verba da Lei Agnelo/Piva por serem olímpicas.
Em dezembro de 2010, no último levantamento feito pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro), 51 treinadores “gringos” trabalhavam nas modalidades olímpicas - essa conta inclui 16 profissionais de desportes na neve e desportes no gelo, das Olimpíadas de Inverno. Os números excluem aquelas que não recebem verba individual da Lei que destina parte do arrecadado em loterias para o esporte olímpico. Veja abaixo os treinadores pode modalidade olímpica:
ModalidadeNúmero de técnicos
Esgrima8
Atletismo4
Tiro Esportivo3
Handebol2
Hóquei sobre grama2
Lutas2
Basquete1
Boxe1
Canoagem velocidade1
Ginástica artística feminina1
Ginástica rítmica1
Hipismo adestramento1
Hipismo CCE1
Hipismo saltos1
Levantamento de peso1
Pólo aquático1
Remo1
Tênis1
Tênis de mesa1
Tiro com arco1

“A tática que aprendemos com o Guennady foi fundamental para o progresso. Na Europa estão os melhores do mundo, por que não aprender com eles? Até os EUA, que é uma potência, importa da Europa”, disse Taís Rochel, esgrimista que participará do florete individual e por equipes no Pan.
A atleta brasileira refere-se a Miaknovich Guennady, o treinador russo que é contratado pelo Esporte Clube Pinheiros e vai acompanhar os atletas brasileiros ao México - a Rússia tem 26 medalhas de ouro na esgrima em Olimpíadas. Algumas de suas orientações ainda têm palavras em russo, que os atletas precisam decifrar muitas vezes com gesto. “Mas a técnica que você adquire supera essa barreira”, disse Rochel.
A língua ainda é algo que constrange o cubano Luís López, do levantamento de peso. Técnico que já rodou a América do Sul preparando halterofilistas, ele parou agora no Brasil, há dois meses, para trabalhar com os atletas da seleção brasileira. O objetivo é a longo prazo, as Olimpíadas do Rio, em 2016, mas o Pan será o primeiro teste da equipe sob orientação de López.
“Para formar um grande profissional é preciso de oito a 12 anos de trabalho intenso. O Brasil tem atletas com potencial para isso, mas é preciso paciência e trabalhar garotos desde pequenos”, disse López ao iG. Cuba tem quatro medalhas em Olimpíadas no levantamento de peso.
Foto: Divulgação
Luís López, entre os halterofilistas Fernando Reis (esq.) e Wellison Silva
Desde 2001, quando o COB passou a ter dinheiro federal para investir no esporte, houve o aumento de oito para as 22 confederações com treinadores de fora (contando as de Inverno). De 2004 até 2010 houve o aumento de 21 para os 52 técnicos que terminaram a temporada passada trabalhando com brasileiros.
Ricos e pobres
Foto: Divulgação/CBBAmpliar
Técnico da seleção de basquete, Rubén Magnano estará no Pan de Guadalajara
Em janeiro de 2010, o argentino Rubén Magnano assumiu a seleção brasileira de basquete masculino. Campeão olímpico em 2004 com a Argentina, ocupou o posto de outro estrangeiro, o espanhol Moncho Monsalve, e tinha um objetivo traçado: levar o Brasil de volta a uma Olimpíada depois de 16 anos. Ele conseguiu, ao ficar em segundo no Pré-Olímpico de agosto, dentro do seu país.
“O Magnano é super competente. Avalio que defensivamente o Brasil evoluiu com ele”, disse o ala/pivô Guilherme Giovannini, quando a delegação desembarcou em São Paulo após a classificação. No feminino, a CBB (Confederação Brasileira de Basquete) também testou um “gringo”, o espanhol Carlos Colinas, sem o mesmo sucesso. Hoje um brasileiro, Énio Vecchi, garantiu a presença da seleção feminina em Londres-2012, ao vencer o Pré-Olímpico de Neiva, na Colômbia.
O basquete recebeu em 2010 do COB, por meio da Lei Agnelo/Piva, R$ 1,73 milhão. Pelas regras de repasse, o dinheiro pode ser usado para construção ou aluguel de CT, contratação de comissão técnica, compra de equipamentos e viagens para participação de torneios. Gastar (bastante) dinheiro com treinadores estrangeiros, que teoricamente vão melhorar a qualidade de treinamentos, é incentivado pelo COB.
Esportes não olímpicos, mas que participam do Pan, têm mais dificuldade para investimento em mão de obra estrangeira. Caso do boliche, que recebe o repasse de um fundo que o COB tem para aquelas confederações não olímpicas. Em 2010 entrou no caixa pouco mais de R$ 100 mil.

“Se você analisar que os profissionais de boliche nos EUA faturam até US$ 1 milhão (R$ 1,8 milhão), fica difícil contratar alguém para preparar a equipe”, disse Geraldo Couto, presidente da Confederação Brasileira de Boliche e quem vai chefiar a delegação em Guadalajara.
E já que a montanha não vem... Com o dinheiro investido, Marcelo Suartz pôde fazer um intercâmbio nos EUA e lá trabalhar com treinadores e jogadores da potência norte-americana. A previsão é que os brasileiros possam repetir o Pan de 2007, no Rio, e ficar com a prata. Atrás dos EUA...
 

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